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Home»Entretenimento»Faz 60 anos o álbum grandiloquente em que Elis Regina começou enfim a soar em disco com a força de… Elis Regina
Entretenimento

Faz 60 anos o álbum grandiloquente em que Elis Regina começou enfim a soar em disco com a força de… Elis Regina

abril 25, 2025Nenhum comentário0 Visitas

Cantora somente conseguiu imprimir a personalidade artística no LP ‘Samba eu canto assim’, produzido por Armando Pittigliani em 1965 com músicas de Edu Lobo, Francis Hime e Adilson Godoy. Capa do álbum ‘Samba eu canto assim’ (1965), de Elis Regina
Divulgação
♫ MEMÓRIA
♪ “É, vou contar o que há / É tempo de dizer quem sou”, avisou Elis Regina ao dar voz aos versos iniciais de Resolução (1964), música que havia sido lançada no ano anterior pelo Quarteto em Cy e por Edu Lobo, parceiro de Lula Freire na composição.
Ao cantar Resolução, pareceu que a cantora mandava recado para si mesma e para o meio musical em álbum, Samba eu canto assim, que mostrou ao Brasil quem era Elis Regina após quatro álbuns infelizes.
Sim, nem sempre grandes cantoras debutam em discos com a dimensão da voz. Sob o jugo de produtores incapazes de perceber a potência da artista, Elis Regina Carvalho Costa (17 de março de 1945 – 19 de janeiro de 1982) lutou muito para soar em disco com a força de… Elis Regina.
Gravado em janeiro de 1965, Samba eu canto assim foi o quinto álbum de estúdio de Elis, mas pareceu o primeiro porque os quatro fracassados discos anteriores foram gravados quando Elis era marionete nas mãos inábeis de executivos da indústria fonográfica.
No álbum de estreia, Viva a brotolândia (1961), feito para gravadora Continental, a cantora foi induzida a disputar mercado com Celly Campello (1942 – 2003), cantora paulista que abrira espaço para a música jovem em 1959 com som pop e ingênuo, produzido no embalo da conquista mundial do rock’n’roll em 1956.
No segundo álbum, Poema de amor (1962), segundo e último disco da artista pela Continental, Elis foi transformada em cantora romântica de boleros de má qualidade.
O terceiro, Ellis Regina, marcou em 1963 a estreia da artista na gravadora CBS, a adoção do l duplo no nome artístico e uma guinada para o samba, mas com repertório de má qualidade. O quarto, O bem do amor, também saiu em 1963 com miscelânea feita em linha similar ao do terceiro disco.
Na época, Elis já barbarizava nos palcos, em trajetória que ganhou impulso em 1964 com os shows da cantora no lendário point carioca Beco das Garrafas, mas somente conseguiu ser Elis em disco – já sem o segundo l adicionado ao nome – ao ser contratada pela gravadora Philips (da qual sairia em 1979 em ruptura ruidosa, mas isso é outra história…) e ao gravar o álbum Samba eu canto assim com produção de Armando Pittigliani.
Em 1964, ano em que assinou com a Philips, Elis já era sensação no palco do Teatro Paramount em show feito com o Copa Trio em São Paulo (SP). Os shows foram o passaporte para a Philips – que disputou o passe da cantora com a gravadora Elenco, de mentor porte, mas prestígio igual ou até maior – e para o álbum, cujo título aparecia com a correta grafia gramatical e um ponto de exclamação (Samba, eu canto assim!) na contracapa do LP.
O disco foi lançado perto da consagração de Elis em 6 de abril 1965 na final do I Festival da Música Popular Brasileira, do qual a cantora saiu vitoriosa ao defender Arrastão (Edu Lobo e Vinicius de Moraes, 1965), música exclusiva do festival e ausente de Samba eu canto assim, disco que de certa forma antecipou a MPB que iria nascer e se fortalecer na era dos festivais a partir daquele ano de 1965.
Conduzida pelos engenheiros de som Célio Martins, Norman Sternberg e Sylvio Rabello, a gravação do disco foi pautada por interpretações e arranjos grandiloquentes, criados pelo baixista Luiz Chaves (1931 – 2007) e pelos maestros Paulo Moura (1932 – 2010) e Lindolpho Gaya (1921 – 1987) à moda da época.
Tamanha pompa já salta aos ouvidos no canto de Reza (1964), outra música de Edu Lobo (esta em parceria com Ruy Guerra) lançada no ano anterior pelo autor – assim como Aleluia (1964), outra parceria de Lobo com Ruy Guerra gravada por Elis no disco.
Exercitado com técnica lapidar, o canto de Elis Regina ainda soou impostado em músicas como Maria do Maranhão (Carlos Lyra e Nelson Lins e Barros, 1963) e Por um amor maior (1965), música sublime e então inédita do quase debutante Francis Hime, parceiro do recorrente Ruy Guerra no tema. HIme e Guerra também assinam Último canto (1965), samba-canção que arrematou o álbum em tom lacrimoso no formato ostensivo da maioria dos arranjos.
Em João Valentão (Dorival Caymmi, 1953), Elis driblou a grandiloquência e amaciou um pouco o canto, guiada pelo arranjo de Paulo Moura que insinuou clima de samba-jazz na introdução da faixa. Foi quando ficou evidente o som azeitado de Rio 65 Trio, conjunto que nasceu com o álbum de Elis e que trazia na formação o pianista Dom Salvador, o baterista Edison Machado (1934 – 1990) e o baixista Sergio Barrozo.
Foi com o toque sagaz do Rio 65 Trio que Elis se apropriou com notável senso rítmico de Menino das laranjas (1964), música que, embora tenha sido lançada em disco pelo organista Walter Wanderley (1932 – 1986) no ano anterior, se tornou um dos grandes sucessos da cantora na segunda metade dos anos 1960.
Do pianista e compositor Adylson Godoy, Elis gravou Eternidade (1965) – parceria de Godoy com Luiz Chaves, um dos arranjadores do disco – e Sou sem paz (1964), música lançada pelo Zimbo Trio no ano anterior. Ambas foram gravadas pela cantora no estilo pomposo que rege o disco, com o detalhe de que o verso “E triste, amor, eu canto assim”, da música Sou sem paz, inspirou o título deste álbum dominado pelo samba em várias variações.
O canto esplendoroso de Elis irradiou especial calor no pot-pourri que uniu três afrosambas de 1963 – Consolação (1963), Berimbau (1963) e Tem dó – da parceria lapidar de Baden Powell (1937 – 2000) com Vinicius de Moraes (1913 – 1980).
E ainda teve mais. Na 11º das 12 faixas, o álbum Samba eu canto assim apresentou uma das mais antológicas intepretações de Elis, a do angustiado samba-canção Preciso aprender a ser só (1965), uma das obras-primas da parceria dos irmãos Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle. Ali Elis já foi inteiramente Elis.
Ouvido e analisado 60 anos após a edição, com o benefício da perspectiva do tempo, o álbum Samba eu canto assim é belo retrato de um tempo específico da música brasileira no nascimento da MPB. Elis apararia excessos em álbuns ainda melhores e atingiria a plenitude como intérprete na discografia lançada ao longo da década de 1970.
Mas já estava tudo ali – a técnica, a alma e a habilidade de usar a voz como instrumento que caracterizavam essa cantora que se portava como músico – nesse disco de 1965 que dividiu águas na trajetória fonográfica da artista, saudade do Brasil desde janeiro de 1982.
Com o álbum Samba eu canto assim, Elis Regina disse quem era. E o resto foi uma grande história, desenvolvida na dimensão da cantora.
Contracapa do álbum ‘Samba eu canto assim’ (1965), de Elis Regina
Divulgação

Fonte: G1 Entretenimento

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